A autora entende que é necessário o questionamento à natureza dos acervos antes de expô-los, já que eles comumente legitimam uma versão manipulada da história de um povo. Cabe aos profissionais dos museus “conduzir o público a uma revisão dos conceitos” , através de serviços educativos e mostras temáticas.
A partir das associações entre poder real, burguesia e clero, formou-se uma população não preparada para pensar criticamente cooperando com os interesses hegemônicos e negligenciando sua própria importância/ valor cultural.
Esta população encontra no museu:
“um acervo cuidadosamente conservado e exposto com apuro técnico o qual lhe é, quase sempre em sua totalidade estranho, mas que transmite a idéia de que é importante porque esteve associado à pessoas e fatos importantes.”
Normalmente não há preocupação com o uso da informação intrínseca ao acervo, pelos profissionais de Museu, ou se o objeto servirá de suporte para um questionamento da realidade social em função de seu desenvolvimento, como foi discutido em Santiago do Chile, 1972.
Entendendo que o patrimônio cultural discutido no presente para o futuro está atrelado com o desenvolvimento social da nação, tem o museólogo uma função chave: gerir este patrimônio.
O serviço educativo do Museu tem então uma função política, já que o homem entende-se a partir da sua percepção crítica do meio que esta atividade museológica proporciona.
“Espaços privilegiados de comunicação pela tridimensionalidade que contêm a qual fascina as gerações formadas num mundo imagético os Museus não podem e não devem ser deixados nas mãos somente de pesquisadores e educadores preocupados com a contextualização imediata do objeto: precisam de um profissional consciente de sue papel reordenador dos fatos humanos.”
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Texto 07 - Museus e Ideologia
O texto irá discutir a ligação entre museus e ideologias na América Latina, focando-se na década de 70, quando foi formulada uma política de museus que mudaria o pensamento museológico.
Apesar de todas as mudanças que ocorreram na sociedade latino-americana, inclusive na área museológica, os museus permanecem sob influências de forças sócio-políticas que governam na sociedade.
Em 1972, em Santiago do Chile, foi realizada uma mesa redonda cujo:
objetivo era discutir, exclusivamente e pela primeira vez, os problemas museológicos da região (...). Entre os temas tratados, um foi crucial: o museu integral (...). Na ocasião, criticou-se os museus da América Latina por não contribuírem para a solução dos problemas da região, não cumprindo com sua missão social .
A partir disso o museu não estará centrado em representar o passado. Preocupa-se, também, em, a partir do presente, formular políticas para o futuro.
Na década de 80 passa-se a pensar o museu como “protagonista de um processo de transformação social” . O patrocínio é encarado como tema político, passando a englobar não só a expressão passiva da cultura (o material), mas englobando as expressões ativas da cultura (o imaterial).
Na teoria, esse patrimônio é considerado como de uso público, de toda a sociedade. Mas na prática seu uso varia conforme a bagagem social de cada grupo. Destacando que a relação entre o grupo e o patrimônio cultural envolve sua participação da criação.
Quando se classifica o patrimônio cultural como “bens de valor e conteúdo universal” esquece-se que o processo cultural é dinâmico e que pode mudar. Quem faz esta classificação são os grupos sociais hegemônicos.
Na atualidade, através das “máquinas de cultura”, os meios de comunicação de massa atingem maior número de pessoas em todas as classes, enquanto que os meios de cultural tradicional ficam restritos a uma camada da sociedade.
Há uma exploração política dos bens culturais, que passam a ser vistos como um “paradigma sociocultural para a presente geração” . Mas, os freqüentadores de museus sabem as mudanças significativas que o patrimônio sofre perante diferentes contextos. Logo, o museu não pode mostrar a realidade—e com isso preservam somente artefatos autênticos—mas está presente na imaginação, cuidando daquilo que representa a cultura.
Hoje a preservação do patrimônio não está centrada no poder público, cabendo à sociedade a preocupação e o interesse na sua manutenção. Quando não há manifestação social, não será dada importância imediata ao bem cultural.
Deve-se destacar, finalmente, que as questões relativas ao patrimônio cultural fogem aos limites marcados tanto pelos profissionais como pelo próprio Estado, (...). O patrimônio cultural ocupará no futuro um lugar de destaque nas esferas políticas e de decisão; amplos grupos culturais reclamarão que sua herança cultural alcance, por fim, o lugar que lhe corresponde na sociedade.
Apesar de todas as mudanças que ocorreram na sociedade latino-americana, inclusive na área museológica, os museus permanecem sob influências de forças sócio-políticas que governam na sociedade.
Em 1972, em Santiago do Chile, foi realizada uma mesa redonda cujo:
objetivo era discutir, exclusivamente e pela primeira vez, os problemas museológicos da região (...). Entre os temas tratados, um foi crucial: o museu integral (...). Na ocasião, criticou-se os museus da América Latina por não contribuírem para a solução dos problemas da região, não cumprindo com sua missão social .
A partir disso o museu não estará centrado em representar o passado. Preocupa-se, também, em, a partir do presente, formular políticas para o futuro.
Na década de 80 passa-se a pensar o museu como “protagonista de um processo de transformação social” . O patrocínio é encarado como tema político, passando a englobar não só a expressão passiva da cultura (o material), mas englobando as expressões ativas da cultura (o imaterial).
Na teoria, esse patrimônio é considerado como de uso público, de toda a sociedade. Mas na prática seu uso varia conforme a bagagem social de cada grupo. Destacando que a relação entre o grupo e o patrimônio cultural envolve sua participação da criação.
Quando se classifica o patrimônio cultural como “bens de valor e conteúdo universal” esquece-se que o processo cultural é dinâmico e que pode mudar. Quem faz esta classificação são os grupos sociais hegemônicos.
Na atualidade, através das “máquinas de cultura”, os meios de comunicação de massa atingem maior número de pessoas em todas as classes, enquanto que os meios de cultural tradicional ficam restritos a uma camada da sociedade.
Há uma exploração política dos bens culturais, que passam a ser vistos como um “paradigma sociocultural para a presente geração” . Mas, os freqüentadores de museus sabem as mudanças significativas que o patrimônio sofre perante diferentes contextos. Logo, o museu não pode mostrar a realidade—e com isso preservam somente artefatos autênticos—mas está presente na imaginação, cuidando daquilo que representa a cultura.
Hoje a preservação do patrimônio não está centrada no poder público, cabendo à sociedade a preocupação e o interesse na sua manutenção. Quando não há manifestação social, não será dada importância imediata ao bem cultural.
Deve-se destacar, finalmente, que as questões relativas ao patrimônio cultural fogem aos limites marcados tanto pelos profissionais como pelo próprio Estado, (...). O patrimônio cultural ocupará no futuro um lugar de destaque nas esferas políticas e de decisão; amplos grupos culturais reclamarão que sua herança cultural alcance, por fim, o lugar que lhe corresponde na sociedade.
Texto 06 - Memória, espaço, tempo, poder
“Memória-espaço-tempo-poder são, no conjunto, o fundamento essencial, único, inclusive da Museologia” .
A inter-relação dos quatro elementos acima citados forma o objeto a ser gerenciado pelos museus: as referências, ou seja, as construções mentais e/ou físicas, materializando assim a memória.
Assim, pode-se ser trabalhados dois caminhos: fixar-se no passado ou usar essa memória como instrumento de educação e desenvolvimento.
A construção de um museu deveria, então, estar ligada à uma consciência global (física, social e cultural) e à partir disso estudar o homem e sua relação com o meio de maneira compreensível como território em sua especificidade. Assim, “o museu se situa, pois, numa tensão entre especificidade e globalidade” .
Todo espaço é impregnado de história, sendo que cabe ao museólogo em conjunto com a comunidade mapeá-los e identificar tudo o que pode se tornar “instrumento de conscientização, de educação [e] de desenvolvimento (...)” . A tensão do museu situa-se na conservação das memórias ou no desenvolvimento do espaço.
Ao ser apenas considerado como espaço de conservação de coisas antigas e de patrimônio, o museu é definido como apenas instituição, e não entendido como fenômeno, sua real natureza. “O elo de união do museu com o tempo é, portanto, a evidência mesma” : o objeto conta uma história passada, mas continua formulando perguntas para o futuro.
O ideal do surgimento de um museu seria que partisse da vontade da própria comunidade de reconhecer sua memória. “Infelizmente, estes não são os hábitos daqueles que detêm o poder de decisão” .
Visto que tais práticas não são levadas em consideração, vê-se muitas vezes a implementação do museu como atividade de prestígios e status.
ideal, tratando-se do museu, seria evocar a memória ou a história (...) não mais numa situação de aprendizagem, mas numa posição de questionamento, a única que realmente importa.
A inter-relação dos quatro elementos acima citados forma o objeto a ser gerenciado pelos museus: as referências, ou seja, as construções mentais e/ou físicas, materializando assim a memória.
Assim, pode-se ser trabalhados dois caminhos: fixar-se no passado ou usar essa memória como instrumento de educação e desenvolvimento.
A construção de um museu deveria, então, estar ligada à uma consciência global (física, social e cultural) e à partir disso estudar o homem e sua relação com o meio de maneira compreensível como território em sua especificidade. Assim, “o museu se situa, pois, numa tensão entre especificidade e globalidade” .
Todo espaço é impregnado de história, sendo que cabe ao museólogo em conjunto com a comunidade mapeá-los e identificar tudo o que pode se tornar “instrumento de conscientização, de educação [e] de desenvolvimento (...)” . A tensão do museu situa-se na conservação das memórias ou no desenvolvimento do espaço.
Ao ser apenas considerado como espaço de conservação de coisas antigas e de patrimônio, o museu é definido como apenas instituição, e não entendido como fenômeno, sua real natureza. “O elo de união do museu com o tempo é, portanto, a evidência mesma” : o objeto conta uma história passada, mas continua formulando perguntas para o futuro.
O ideal do surgimento de um museu seria que partisse da vontade da própria comunidade de reconhecer sua memória. “Infelizmente, estes não são os hábitos daqueles que detêm o poder de decisão” .
Visto que tais práticas não são levadas em consideração, vê-se muitas vezes a implementação do museu como atividade de prestígios e status.
ideal, tratando-se do museu, seria evocar a memória ou a história (...) não mais numa situação de aprendizagem, mas numa posição de questionamento, a única que realmente importa.
Texto 01 - Memória e Museu: Expressões do passado, visões do futuro
Busca a conceituação de memória, ou memórias, através de pensadores, como Bergson, para quem a memória é individual, um mergulho em si mesmo e na experiência de cada um. A memória como uma construção no presente, que se dá através da percepção e da experimentação. A memória coletiva, para Halbwachs, um ato social, que dá origem à memória individual. O que haveria de peculiar na memória individual, seria o pensar a memória coletiva de modo diferenciado por cada indivíduo. A memória coletiva como base da memória individual. A coesão da memória coletiva como um compartilhamento de experiências a nível da afetividade, como uma reiteradora da vivência individual. A memória coletiva onde coexistem as normas, os símbolos, a atemporalidade das lembranças que perduram. A memória coletiva que se baseia na mediação daqueles que fazem do passado, dentro de seus âmbitos próprios, um lugar de significação.
Enfatiza a ancestralidade por seu caráter conciliador dos opostos e, principalmente, seu caráter contínuo, onde se encontra a nossa origem e percebemos que somos a origem daqueles que virão.
Comenta a possibilidade das memórias múltiplas com lógicas próprias.
Focaliza a mudança de memória, que sempre se apóia em um espaço social, como a mudança das idéias do próprio grupo ou indivíduo desse espaço social, comportando também o esquecimento, que junto com a reconstrução definem a ação que passa pela noção de valor. Propõe a integração dos conflitos da memória sintetizada pelo grupo (memória dominante) com a memória fragmentada (memória dominada), sendo a primeira legitimada pelo seu tempo de permanência.
Determina a memória coletiva como um processo cultural a ser transmitida também pela escrita, pela música, pelos museus, além da fala. Indaga, entretanto, da capacidade desses meios de representar a cultura e, em especial o museu e sua linguagem específica, que é a convergência de diferentes expressões de linguagem e expressão material.
Define o tempo e o espaço de cada grupo como próprio de cada um, o que particulariza o sentido dos acontecimentos e da identidade para grupos diferentes.
Identifica a necessidade de memória tanto das sociedades letradas quanto das iletradas, utilizando-se cada uma delas de seus próprios recursos mnemônicos. Aponta a vital importância do objeto como representação do homem em suas mais variadas possibilidades de ser e de se relacionar.
Afirma o museu, dentre outras organizações culturais, como detentor e difusor da memória cultural legitimando a memória coletiva.
Chama a atenção para o trabalho de organização física da memória pelas diversas instituições de guarda, e difusão, assim como o trabalho, dessas mesmas instituições, de regulamentação, que inclui a manutenção ou a modificação das regras sem nenhum prejuízo da função primordial de guardar , organizar e difundir. Essa guarda, organização e difusão apontam o museu como o lugar onde se consagram as diversas memórias; o museu como construtor da memória tanto material como imaterial.
Focaliza o museu tradicional como reforçador da memória do objeto em seu contexto passado, fonte de admiração individual, atribuidora de novos sentidos a esse mesmo objeto.
Percebe a função do museu como organizador da memória cultural, fazendo a conexão entre essa memória cultural e as diversas expressões de memória, mesmo aquelas que prescindem do material, como os sítios musealizados, ecomuseus e museus de território. Atenta para o risco dessas modalidades terem seu fazer cotidiano, onde se apóia sua musealização, tomado apenas por ato cultural e a conseqüente perda de espontaneidade, quando o homem mais interpreta do que vive.
Mostra a nova relação entre o real e a virtualidade da imagem possibilitada pelas redes virtuais. Aponta a virtualidade imagética de, apesar de jamais ter o mesmo poder impactante do objeto real, ser capaz da retenção e modificação da realidade. A possibilidade do engano em se achar que faz parte de nós aquilo do qual, na realidade, nós somos a parte. A possibilidade infinita de poder que a imagem nos proporciona, à medida que podemos projetar e repetir e de assumir o que quisermos sem o abandono de nós mesmos.Quando somos o sujeito e o objeto na criação.
por Maria Helena
Enfatiza a ancestralidade por seu caráter conciliador dos opostos e, principalmente, seu caráter contínuo, onde se encontra a nossa origem e percebemos que somos a origem daqueles que virão.
Comenta a possibilidade das memórias múltiplas com lógicas próprias.
Focaliza a mudança de memória, que sempre se apóia em um espaço social, como a mudança das idéias do próprio grupo ou indivíduo desse espaço social, comportando também o esquecimento, que junto com a reconstrução definem a ação que passa pela noção de valor. Propõe a integração dos conflitos da memória sintetizada pelo grupo (memória dominante) com a memória fragmentada (memória dominada), sendo a primeira legitimada pelo seu tempo de permanência.
Determina a memória coletiva como um processo cultural a ser transmitida também pela escrita, pela música, pelos museus, além da fala. Indaga, entretanto, da capacidade desses meios de representar a cultura e, em especial o museu e sua linguagem específica, que é a convergência de diferentes expressões de linguagem e expressão material.
Define o tempo e o espaço de cada grupo como próprio de cada um, o que particulariza o sentido dos acontecimentos e da identidade para grupos diferentes.
Identifica a necessidade de memória tanto das sociedades letradas quanto das iletradas, utilizando-se cada uma delas de seus próprios recursos mnemônicos. Aponta a vital importância do objeto como representação do homem em suas mais variadas possibilidades de ser e de se relacionar.
Afirma o museu, dentre outras organizações culturais, como detentor e difusor da memória cultural legitimando a memória coletiva.
Chama a atenção para o trabalho de organização física da memória pelas diversas instituições de guarda, e difusão, assim como o trabalho, dessas mesmas instituições, de regulamentação, que inclui a manutenção ou a modificação das regras sem nenhum prejuízo da função primordial de guardar , organizar e difundir. Essa guarda, organização e difusão apontam o museu como o lugar onde se consagram as diversas memórias; o museu como construtor da memória tanto material como imaterial.
Focaliza o museu tradicional como reforçador da memória do objeto em seu contexto passado, fonte de admiração individual, atribuidora de novos sentidos a esse mesmo objeto.
Percebe a função do museu como organizador da memória cultural, fazendo a conexão entre essa memória cultural e as diversas expressões de memória, mesmo aquelas que prescindem do material, como os sítios musealizados, ecomuseus e museus de território. Atenta para o risco dessas modalidades terem seu fazer cotidiano, onde se apóia sua musealização, tomado apenas por ato cultural e a conseqüente perda de espontaneidade, quando o homem mais interpreta do que vive.
Mostra a nova relação entre o real e a virtualidade da imagem possibilitada pelas redes virtuais. Aponta a virtualidade imagética de, apesar de jamais ter o mesmo poder impactante do objeto real, ser capaz da retenção e modificação da realidade. A possibilidade do engano em se achar que faz parte de nós aquilo do qual, na realidade, nós somos a parte. A possibilidade infinita de poder que a imagem nos proporciona, à medida que podemos projetar e repetir e de assumir o que quisermos sem o abandono de nós mesmos.Quando somos o sujeito e o objeto na criação.
por Maria Helena
Texto 02 - A Substância Social da Memória
A autora aborda a recente valorização da tradição oral, remonta às origens das chamadas “crônicas”, como eram chamadas na Idade Média as narrativas de episódios do cotidiano. O objeto de registro dos cronistas_ aspectos pitorescos, episódios de família_ constitui a memória oral; quando a história política passa a registrar o poder da burguesia, adota uma forma compacta, visando ao enaltecimento de seus membros, passando a crônica a ser considerada um gênero literário menor, por tratar os eventos de forma descontínua. Esse sentido da História Política é o que entra em crise nos anos 70, as pequenas estórias, que parecem fragmentadas, tomam o seu lugar. Indagando sobre os motivos dessa valorização, conclui não poder a história oficial dar conta das paixões individuais, escondidas por trás dos episódios.
Expõe reflexões a partir dos resultados obtidos em sua pesquisa, cita atas de reuniões oficiais, que não registram conflitos e divergências, são feitas para agradar à facção ou ideologia ocupante do poder, naquele momento. Alerta a autora para o fato de que, muitas vezes, a memória coletiva seja moldada pela ideologia, influindo em depoimentos de testemunhas orais; afirma ainda ter a memória oral seus desvios e preconceitos, omissões, esquecimentos, e como estes revelam os traços deixados na sensibilidade popular da época. Exemplifica com o desnível revelado em depoimentos sobre experiências vividas por contemporâneos, mas que se encontravam em lados opostos; as instituições escolares reproduzem a versão difundida pela classe dominante, mais influente, contrapondo a memória social à lembrança pessoal.
Traz à tona a noção de tempos vivos e tempos mortos, conceituando os primeiros como os que possuem substância memorativa, biográfica; o segundo conceito englobaria as lacunas provocadas pelas filas, percursos no trânsito, etc..
Revê a oposição entre objetos biográficos, os que envelhecem com o possuidor e se incorporam à sua vida, como o álbum de fotografias, o relógio de família, tornando-se insubstituíveis ao representarem a sensação de continuidade, e os objetos de status, os valorizados pela moda, mas que não envelhecem com o dono, se deterioram, são descartáveis; a mobilidade a que nos condena o sistema econômico conduz ao desenraizamento e à desagregação da memória. Fotografias familiares expostas numa sala burguesa podem ser contempladas sob dois olhares: o biográfico e o social, convertidas em peças de um mecanismo de reprodução de status. Se a sociedade de massas criou o objeto descartável, a de consumo rapidamente produz, faz circular e logo descarta os objetos de status.
Descreve ainda depoimentos onde se encontram presentes referências a objetos perdidos, a carência provocada por seu desaparecimento. Revela que um dos depoentes chega a citar uma passagem de “Pinóquio”, na qual seu criador, Gepetto, o aconselhava a não jogar nada fora, pois um dia poderia fazer falta; conselho repetido pelos velhos, que não conseguem assimilar a experiência do descartável, para eles um desperdício cruel.
Segundo a autora, a memória seleciona acontecimentos ligados por índices comuns. O cientista social tem como tarefa buscar vínculos entre fenômenos distanciados no tempo. Sendo a rememoração uma retomada salvadora do passado, nos depoimentos biográficos se evidencia o processo de re-conhecimento e elucidação. A experiência de idosos se transforma em conselhos, a história absorve: a moral da história não tem o peso da moral abstrata, mas a graça da fantasia. Alerta contra o mutismo, pois petrifica a lembrança.
Ao abordar a memória, cita Santo Agostinho e Bergson: tratada pelo primeiro como “ventre da alma”, e pelo segundo como a alma da própria alma, percepção que é o resultado da interação de ambiente e sistema nervoso, interferindo no curso das representações. O espaço cumulativo da memória tomaria a forma de um cone, cujo vértice penetra o real, visando a ação pragmática, a percepção do que nos seria útil no momento.
Insiste nos termos narrativa e oralidade, desenvolvidas no tempo, falando nele e dele, a voz representando o fluxo circular da memória entre o presente e o passado.
Ressalta ainda a musicalidade da expressão oral, a sucessão de sílabas fortes e fracas, alternância do tempo que vai e vem.
Expõe reflexões a partir dos resultados obtidos em sua pesquisa, cita atas de reuniões oficiais, que não registram conflitos e divergências, são feitas para agradar à facção ou ideologia ocupante do poder, naquele momento. Alerta a autora para o fato de que, muitas vezes, a memória coletiva seja moldada pela ideologia, influindo em depoimentos de testemunhas orais; afirma ainda ter a memória oral seus desvios e preconceitos, omissões, esquecimentos, e como estes revelam os traços deixados na sensibilidade popular da época. Exemplifica com o desnível revelado em depoimentos sobre experiências vividas por contemporâneos, mas que se encontravam em lados opostos; as instituições escolares reproduzem a versão difundida pela classe dominante, mais influente, contrapondo a memória social à lembrança pessoal.
Traz à tona a noção de tempos vivos e tempos mortos, conceituando os primeiros como os que possuem substância memorativa, biográfica; o segundo conceito englobaria as lacunas provocadas pelas filas, percursos no trânsito, etc..
Revê a oposição entre objetos biográficos, os que envelhecem com o possuidor e se incorporam à sua vida, como o álbum de fotografias, o relógio de família, tornando-se insubstituíveis ao representarem a sensação de continuidade, e os objetos de status, os valorizados pela moda, mas que não envelhecem com o dono, se deterioram, são descartáveis; a mobilidade a que nos condena o sistema econômico conduz ao desenraizamento e à desagregação da memória. Fotografias familiares expostas numa sala burguesa podem ser contempladas sob dois olhares: o biográfico e o social, convertidas em peças de um mecanismo de reprodução de status. Se a sociedade de massas criou o objeto descartável, a de consumo rapidamente produz, faz circular e logo descarta os objetos de status.
Descreve ainda depoimentos onde se encontram presentes referências a objetos perdidos, a carência provocada por seu desaparecimento. Revela que um dos depoentes chega a citar uma passagem de “Pinóquio”, na qual seu criador, Gepetto, o aconselhava a não jogar nada fora, pois um dia poderia fazer falta; conselho repetido pelos velhos, que não conseguem assimilar a experiência do descartável, para eles um desperdício cruel.
Segundo a autora, a memória seleciona acontecimentos ligados por índices comuns. O cientista social tem como tarefa buscar vínculos entre fenômenos distanciados no tempo. Sendo a rememoração uma retomada salvadora do passado, nos depoimentos biográficos se evidencia o processo de re-conhecimento e elucidação. A experiência de idosos se transforma em conselhos, a história absorve: a moral da história não tem o peso da moral abstrata, mas a graça da fantasia. Alerta contra o mutismo, pois petrifica a lembrança.
Ao abordar a memória, cita Santo Agostinho e Bergson: tratada pelo primeiro como “ventre da alma”, e pelo segundo como a alma da própria alma, percepção que é o resultado da interação de ambiente e sistema nervoso, interferindo no curso das representações. O espaço cumulativo da memória tomaria a forma de um cone, cujo vértice penetra o real, visando a ação pragmática, a percepção do que nos seria útil no momento.
Insiste nos termos narrativa e oralidade, desenvolvidas no tempo, falando nele e dele, a voz representando o fluxo circular da memória entre o presente e o passado.
Ressalta ainda a musicalidade da expressão oral, a sucessão de sílabas fortes e fracas, alternância do tempo que vai e vem.
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